Van Gogh, La Nuit Etoilee a St. Remy
Reminiscências da Noite II - Há pouco a ser dito hoje. Assim sendo, relembro que há um ano, já destilava pelo
Anomia uma nesga do meu desejo, materializado nos ensaios
La Joie de Vivre (em quatro tempos) e
Labirintos, os quais parecem se coadunar, apesar de tão díspares em tempo-espaço:
La joie de vivre:
Bobo romântico e réu-confesso que sou, além de um frustrado poetaço, insisto em uma idéia renitente, acerca do que move a humanidade em seus destinos e conquistas. Uma construção capenga que me permiti fazer, dando conta de que a tal "superestrutura" de Marx, antes de moldar a "infraestrutura" social do Estado, tinha como supedâneo a satisfação da libido. Capenga, haja vista que me foge absoluta competência para discorrer sobre sociologia ou mesmo aprofundar-me nos mistérios da obra Freudiana. Mesmo assim, insisto nesse devaneio Freud-Marxista a me satisfazer as dúvidas dos motivos que levam à buscarem a humanidade algum desiderato.
Por isso, vislumbro ímpar magnitude à paixão, aos deslumbres e à insensatez que permeia o amor. Amor é, por si só, pura anomia!
Ontem me lancei em algumas aventuras cinematográficas pelo frame-a-cabo.
Posto isto, apesar da minha hermética atitude de não abir concessão ao Tim Sam no que tange à Sétima Arte, ontem lembrei-me de algumas exceções feitas. Assistindo novamente ao filme "O Náufrago", de Bob Zemicks, o mesmo diretor de "Back to The Future", retive à retina uma cena que julgo de grande lirismo, onde as personagens de Tom Hanks e Helen Hunter se reencontram numa simbiose metafórica de chuva e lágrimas. Uma pintura em celulóide, onde a analogia à Nona de Ludwig é realizada num átimo. A cena é pautada pela mesma força pulsante que ameaça desaguar numa explosão colossal a qualquer momento. No filme, os deuses banham o casal com as águas-de-março que vertem dos céus e da retina despedaçada das personagens tão bem interpretadas. Em que pese o desempenho dos atores, o roteiro responde pela magia das cores e pelo amálgama de sentimentos que irrompem das imagens direito à retina e mente do espectador. Arrasadora, a cena tem seu ápice na explosão que se insurge contra o desejo e norte da libido. A vida tem dessas coisas, enfim. Totem e tabu.
Outra cena de um filme não menos hollywoodiano, no mesmo diapasão que mistura gotas de lágrima, na bela construção que detona os corações bobamente românticos como o meu, com a expressividade torrencial das chuvas, é produto de "Nascido em Quatro de Julho", de Oliver Stone.
Numa cena que julgo de bela feitura, o personagem corre em busca do seu amor-imperfeito, sua última esperança de salvação. Enfrenta não só a natureza cruel que lhe encharca o raciocínio, como também o próprio medo de ser rejeitado. A cena dita não somente reproduz o medo do personagem, mas além disso, retrata o sinal dos nossos tempos, onde nos deparamos amiúde com a luta contra nossa natureza. Quase sempre a mulher que repousa em nossos amores platônicos está a poucos passos, mas a dorida realidade nos ensina que temos que atravessar toda uma tempestade até chegarmos ao destino desejado. O final irrompe de forma emblemática porque o personagem encontra o seu destino, enfim. Sem fim...
O tempo é o senhor da razão.
In casu, ele - o tempo - me furta a liberdade de continuar nesse devaneio da sétima arte.
Por fim, cito uma frase de Oscar Wilde em uma de suas famígeras cartas advindas da época de cárcere:"
La joie de vivre foi-se e ela, ao lado da força de vontade, é o fundamento da arte."
C'est la vie.
La Joie de vivre II :
Há coisa mais bela do que o olhar torpente da mulher apaixonada? A cumplicidade da paixão, mesmo que por poucos segundos, o destemor do futuro...
A força de um toque, uno olhar.
Não há nada mais ímpar do que o sentir-se uno, indivisível, mesmo que acompanhado.
A arrebatadora força do olhar da pessoa amada que se distanciou, quando do reencontro, numa onda que ressurge como a fênix.
Os mesmos olhos que tanto amaram e espelharam d'alma ao fundo.Do amor infinito enquanto amor.
Daqueles olhos que me viram amando.
Há coisa mais bela? Eu me confesso...
La joie de vivre III:
Buscar-te no doce sabor da lembrança, sozinho, notívago.
Lembrar-te os momentos sinceros em que o mundo restava inerte, mero espectador.
Saber-te a pérfida roda-viva que admoesta os sentidos trôpegos.
Buscar-lhe sempre à solidão rotineira, amalgamando-te o corpo.
Sentir-te toda, partilhando-te a alma corroída dos sentidos.
Buscar-te no doce sabor da lembrança, sozinho, notívago...
La joie de vivre IV:
O teu buscar no escuro, da luz, a esperança, me corrói os sentidos.
Tua face, à luz lunar, dos olhos saltam faíscas.
A chuva insistente que debate-se ao vidro embaciado da noite.
O mar, não tão distante, mas tão distante dos corpos cansados.
Teu rosto no escuro, nada tão inesquecível, perdido nos idos do andar do tempo.
Eu venero-te, ao clarão dos lampejos e da lua, tão esquecida nesses dez anos.
Teu rosto, teu corpo, tua boca...tão perto no distante emaranhado do labirinto da minha mente...
Labirintos
Eu vejo à parede do escritório a Casa Amarela de Van Gogh.
Penso nos labirintos que inundam a nossa mente.
Nos tortuosos caminhos que me impedem o decifrar-te.
Tivesse eu coragem de te confessar o meu desejo.
Do Tímido beijo que nunca roubar-te-ei à noite.
A mesma cor amarela da Casa do Benfica.
São labirintos mundanos que direcionam à mesma arte.
Navego sôfrego nos desencontros da tua beleza.
À parede do escritório eu vejo os teus olhos.
Numa tarde atribulada eu leio os teus medos.
Apaixono-me reticente percebendo-te desnuda.
Mesmo sabendo que nasce morto o amor vesperal.
À insensatez do crepúsculo solar, vou capitulando.
Enquanto adentro na Casa Amarela de Van Gogh.
postado por Emerson Damasceno
Primitivismo feroz, instinto.
Essência de animal selvagem.
Precaução comandando os movimentos, lentos.
O grande felino negro sai da toca.
Predador, esconde-se ao menor sinal de movimento estranho.
O encontro com a lua é sinal de acalanto, proteção.
Como águia em suspensão dos alísios na amplidão.
Se fosse domesticado, não devoraria os que ousassem cruzar seu caminho.
É bicho solto explorando a noite,
Espírito indomável demarcando o território,
largando suas pegadas na escuridão da mata.
Move-se sorrateiramente, à espreita, pronto para o ataque
Diante do menor sinal.
Não o desafie, não provoque a reação, abstenha-se do olho-no-olho.
Evite. Passe ao largo, por mais que isso provoque adrenalina.
Ainda que a possibilidade do desafio vire idéia fixa.
E a própria vida se perca nesse confronto.
por Analu publicado no
Lemniscata
Vincent Van Gogh - La Nuit Etoilee
Reminiscências da Noite - Uma noite só comigo, onde recordo o passado. Uma noite sem vozes, sem música. Sozinho com o pinho cansado e a pena já gasta. Resquícios do dia que já se foi. São poucos os acordes com os quais celebro o adormecer lento. Noite sem ninguém. Só às palavras do Poeta:
"Soneto do Corifeu
São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.
Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua."
Vinicius de Moraes
Uma noite sem paisagens, só vontades. Sem sono, só sonhos. O cheiro da noite completa o ambiente noctívago, repleto de personagens e palavras que desfilam por entre os labirintos do meu imaginário inquieto, as páginas inconscientes de um romance por escrever e a voz emudecida pelo cansaço. Solitário olhar que caminha lento, pautado pela pulsar claudicante em minhas veias. À vista cansada saltam as palavras de um poema escrito num passado distante:
"
Soneto do Acordar-te
Em um momento perdido no tempo eu queria te desvendar.
Emaranhar-me ao teu corpo e me permitir o teu abraço.
Numa aposta em que nunca saberemos os vencedores,
Às marcas dos beijos que sonhei uma única vez roubar-te.
Acordar às cordas que nos prendem os corpos em êxtase.
Marcar-te às amarras com um beijo ao único acordar-te.
E hoje, durante um efêmero segundo, eu tive você, minha.
E dos teus lábios de carmim eu suguei o sentido da vida.
Mas ousei apagar meu desejo como deletam-se imagens.
E me foi suficiente por um tênue cavalgar de segundos.
Quando me amarrou ao passado que nunca há de existir.
E Me doeu pensar que nunca te saberei um beijo sequer.
E à vibrante cor dos olhos de cujo espelho não esquecerei,
Eu me vi te amando, apaixonado que fui em um segundo."
postado por Emerson Damasceno